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quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Aldeia irlandesa diz não aos bancos

Enquanto a Irlanda faz o balanço do ano que se seguiu ao salvamento da UE e do FMI, todos os domingos, os habitantes de Ballyhea realizam um protesto silencioso contra aqueles que mergulharam o país na recessão.

A convocatória para a primeira marcha foi feita, há oito meses, numa folha A4, e era extremamente civilizada. "Rápida, direta, silenciosa", dizia. "Sem cartazes, sem slogans." Aqueles que se sentissem revoltados com o que estava a acontecer deviam juntar-se no parque de estacionamento da igreja e desfilar até à placa que indica o limite de velocidade, à saída da aldeia. Nada de discursos. "Traga apenas a sua cólera."

E a 38.ª marcha semanal, na aldeia de Ballyhea, no norte de Cork, estava marcada para domingo passado, depois da segunda missa. Uma caminhada de dez minutos: ida e volta, do parque de estacionamento de St. Mary à placa do limite de velocidade, à saída da aldeia. Ao fim de alguns meses, a marcha passou a ter um estandarte: "Ballyhea diz não! ao resgate dos detentores de obrigações." Um pequeno ressurgir do ânimo, num país assustado e indeciso.

Tudo começou depois de o jornalista desportivo do Irish Examiner, Diarmuid O'Flynn ter escrito aos deputados irlandeses, protestando contra o resgate dos detentores de obrigações, e recebido como resposta cartas padrão. Em março, O'Flynn convocou alguns amigos e parentes. Cerca de uma dúzia de pessoas compareceram no parque de estacionamento da igreja e realizaram a sua marcha silenciosa e digna, sem que nos tivéssemos dado conta.

BCE instiga os cidadãos a pagar

O'Flynn considera que o resgate dos detentores de obrigações foi decisivo para o que aconteceu ao país. Dezenas de milhares de milhões de dívidas contraídas por empresas privadas foram transferidas para os cidadãos, destruindo a capacidade do Estado de contratar empréstimos a taxas de juro sustentáveis. O'Flynn pensa que, contando com os juros a pagar ao longo dos próximos anos, o custo total do resgate dos detentores de obrigações rondará os 100 mil milhões. "O BCE autoriza-nos a contrair um empréstimo de 100 mil milhões, para podermos gastar 100 mil milhões a pagar aos detentores de obrigações."

Com o correr dos meses, o número de participantes na marcha na pequena aldeia aumentou para cerca de 70, retrocedendo de vez em quando. Ballyhea é uma aldeia muito apegada aos valores da cultura irlandesa, pacata, conservadora e não acostumada a destacar-se. Quando os menores de 14 anos precisam de boleia para um jogo e de apoio nas bancadas, ou quando os agricultores têm muito que fazer, a marcha conta com menos participantes. Mas, mês após mês, a aldeia tem continuado a mostrar o seu empenho.

A esperança de que o protesto ultrapassasse as suas fronteiras não se concretizou. Houve alguma atividade em Fermoy, durante algum tempo, mas depois acabou. A ideia de uma marcha até Dublin foi recebida com indiferença. O'Flynn compreende que é mais fácil a adesão a protestos contra questões específicas – o encerramento de serviços médicos de urgência em vários países, a reintrodução das propinas nas universidades – ou ao movimento de ocupação [da ocupação de Wall Street, aos "indignados" espanhóis]. Mas, quando se trata de falar com manifestantes individuais, da consciência da imensa transferência de riqueza e do que isso faz às finanças públicas, está farto de dar voltas à cabeça. "Não estão a ver a relação?"

O'Flynn criou um blogue, o bondwatchireland.blogspot.com, no qual documenta todos os novos pagamentos, identificando o banco que assumiu a dívida. Apresenta o total do mês, o total do mês seguinte, e indica se se trata de uma dívida com ou sem garantia.
Pequenos atos de resistência para manter a chama viva

Amanhã, como nos diz o Bondwatch, iremos generosamente pagar mais 11 280 000 euros a detentores de obrigações sem garantia que apostaram no Irish Life & Permanent. Uma migalha, em comparação com o que está para vir. Quinze dias depois, vamos pagar 43 275 094 de euros que um qualquer jogador irresponsável apostou nas proezas de investimento do Bank of Ireland. Dos doze pagamentos que iremos fazer até ao fim do ano, apenas um corresponde a uma dívida com garantia – apostas perdedoras que o capitalismo diz que deveriam ser suportadas pelos jogadores mal sucedidos e irresponsáveis. Mas que o BCE manda os cidadãos pagar, apesar de nem sequer termos sabido antecipadamente que essas apostas existiam.

Os mil milhões de dólares que recentemente fomos forçados a pagar aos detentores de obrigações do Anglo fez aumentar a cólera dos irlandeses, mas O'Flynn sublinha que, só no próximo mês, teremos que desembolsar mais do que isso. E, em janeiro, teremos que despender cerca de três mil milhões.

Entretanto, abundarão as discussões sobre os pormenores do mais recente orçamento de austeridade. Falar-se-á das dívidas legítimas do Estado, da necessidade de manter dinheiro nas ATM, mas a relação com a extorsão ilegítima, com o infindável caudal de milhões entregues a jogadores privados irresponsáveis passará despercebida. Exceto em pequenos atos de resistência como o de Ballyhea.

As marchas são pequenas, isoladas, talvez mesmo inúteis – mas estamos a atravessar um período histórico em que os países mais pequenos são oprimidos e estão assustados, enquanto as grandes forças lutam para proteger a sua riqueza. Os pequenos atos de resistência têm a ver não só com luta mas, também, com dignidade, moralidade, princípios – e com manter a chama viva.

Gene Kerrigan

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