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segunda-feira, 14 de Fevereiro de 2011

O fim do petróleo?

A propósito da Feira das Energias Renováveis que terá lugar esta semana em Viseu, o VER entrevistou Paul Roberts, especialista em questões energéticas e um dos oradores do evento. Para o autor do livro “The End of Oil”, apesar de ser necessária uma mudança para uma economia não dependente do petróleo, subestima-se ainda em grande escala a complexidade que esta viragem irá representar.

Paul Roberts
É um dos oradores da ENERVIDA’11 – Feira das Energias Renováveis – que terá início hoje e decorrerá até dia 13, em Viseu e cujo objectivo fundamental é o de consolidar a posição central da região no panorama energético português. Paul Roberts é um reconhecido especialista em questões energéticas e há quase 30 anos que escreve sobre a complexa interacção entre economia, tecnologia e o mundo natural. Em 2004, publicou o seu primeiro livro, intitulado “The End of Oil”, que analisa os limites da economia global dependente do petróleo, explorando alternativas ao ouro negro. Em 2008, publicou “The End of Food”, no qual examina a evolução e as vulnerabilidades do sistema alimentar global. Em entrevista ao VER, Paul Roberts fala essencialmente dos desafios que se colocam a uma economia global que continua significativamente dependente do petróleo.

No seu primeiro livro, “The End of Oil”, publicado em 2004, mencionava uma “iliteracia em termos energéticos”. Sete anos passados, acredita que as pessoas em geral, e os líderes em particular, estão agora mais “letrados” no assunto?
Sim, mas até certo ponto. Todos nós estamos muito mais conscientes no que respeita ao preço do petróleo, por exemplo. E penso que tem existido uma consciencialização crescente sobre as ligações existentes entre a energia do carbono e os riscos ambientais, especialmente os climáticos. Mas existem fossos enormes na nossa compreensão sobre os desafios a enfrentar se nos movermos para um mundo “para além” do petróleo. Existe ainda a tendência para subestimarmos o quão grande e complexa esta mudança será e quanto tempo irá demorar.

Acredita que os líderes globais estão realmente interessados em políticas alternativas ao petróleo ou a dependência, por parte das empresas e dos governos, dos ganhos astronómicos que dele advêm continuam a ser a regra?
Isso depende de que líderes estamos a falar. Se tomarmos em consideração os países da Europa ou da Ásia, por exemplo, que são fortemente dependentes das importações de petróleo, existe um interesse significativamente genuíno nas energias alternativas como forma de reduzir os riscos que são provenientes da volatilidade dos preços do petróleo. A China, por exemplo, está a investir fortemente nas renováveis. Mas mesmo os grandes importadores mantêm-se comprometidos com o petróleo – pela simples razão de que uma mudança para um sistema pós-petróleo demorará décadas, ao longo das quais o acesso às fontes de petróleo terá de ser protegido. Assim, a maioria dos líderes está a balancear entre estas duas esferas – petróleo e não-petróleo.


Quais são os principais efeitos colaterais de uma sociedade com base no petróleo em pleno século XXI?
Uma economia com base no petróleo enfrenta três riscos principais. O primeiro e como não poderia deixar de ser, é o facto de provocar danos ambientais. O segundo é a sua exposição a perigos políticos (com o colapso dos governos do Médio Oriente, por exemplo). E, por último, é o facto de ser uma economia que é dependente de um recurso que se está a tornar cada vez mais escasso e mais dispendioso.

Refere igualmente no seu livro que as classes médias ocidentais se recusam a modificar o seu estilo de vida “dependente da energia”. Com todo o debate em torno do impacto nas alterações climáticas (a par com as provas cientificas que o evidenciam), acredita que as sociedades, em geral, estão mais despertas para o problema e dispostas a alterar o seu comportamento?
Mais uma vez, isso depende do sítio onde se vive. Na Europa, que tem uma história de conservação de energia – em parte devido ao facto de praticar preços de energia mais elevados relacionados com impostos governamentais igualmente altos, os cidadãos estão menos ansiosos no que respeita à ideia de mudança. Nos Estados Unidos e em outros locais onde a energia tem sido barata, muitos cidadãos temem essa mudança (não só nas energias alternativas como nas políticas climáticas) que se traduzirá em custos de energia mais elevados, sendo que, por isso, são menos entusiastas face à ideia.

É possível elencar as “melhores” alternativas a uma economia global baseada no petróleo?
Não sabemos ainda quais são as melhores alternativas, porque estamos ainda no início. Mas sabemos que quaisquer que sejam as alternativas que eventualmente possamos vir a escolher, terão de ser de baixo carbono ou de carbono zero e, em simultâneo, economicamente viáveis.

O preço do barril do petróleo fechou, na passada semana, na barreira psicológica dos 100 dólares por barril, mas no meio de um optimismo crescente de que o crescimento económico global irá aumentar a procura de energia. O que pensa sobre esta situação?
É óbvio que a retoma económica irá empurrar os preços da energia mais uma vez para cima. A questão que se coloca é se estes preços mais elevados, especialmente do petróleo, poderão, eventualmente, ter consequências negativas nessa mesma retoma.

Tem vindo a mencionar uma enorme disrupção com vista à reformulação do nosso sistema energético. Estamos já a dar os primeiros passos no sentido dessa necessária disrupção?
O pico recente no preço do petróleo, a par do crescimento económico global, está a forçar mudanças no sistema energético. Uma questão que se coloca é se este aumento irá fazer com que os governos e as empresas abracem novas formas sustentáveis de energia. Ou se, pelo contrário, teremos de adoptar medidas de “emergência” e suspender as regulamentações ambientais. Se a escolha for o crescimento económico de hoje versus um ambiente limpo ou um clima estável no futuro não é, infelizmente claro, qual será a opção.

Num outro livro que escreveu - “The End of Food” dá conta de uma humanidade que luta crescentemente para satisfazer as suas necessidades alimentares, como Malthus outrora referiu. E a sua previsão – de que nos próximos 40 anos e com ameaça que assombra a agricultura devido às alterações climáticas – é muito pessimista. Pode comentar?
O que eu quero dizer é que será cada vez mais difícil e complexo alimentar uma população que está a aumentar e a alimentar-se de forma cada vez mais intensiva (sobretudo mais carne) enquanto, em simultâneo, os recursos necessários para produzir alimentos – solos saudáveis, água, energia e condições climáticas estáveis – representam problemas cada vez mais maiores. E isso não é ser pessimista. É ser realista.

Para além do crescimento populacional, existem agora mais 3 mil milhões de pessoas que se estão a juntar à cadeia alimentar, comendo quantidades cada vez maiores de produtos provenientes do gado e das aves. O aumento do consumo de carne, leite e ovos em países em desenvolvimento de crescimento acelerado não tem precedentes. O consumo total de carne na China da actualidade é quase o dobro comparativamente com o dos Estados Unidos. Devemos estar preparados para uma grave crise alimentar em 2011?
Os preços irão, sem dúvida, aumentar em 2011, mas não espero que haja uma grande crise alimentar. Principalmente porque as populações mais vulneráveis – em África – tiveram sorte este ano com as suas colheitas. Nos próximos anos, contudo, se os preços se mantiverem elevados e se África for assolada por más condições climáticas, a situação poderá facilmente mudar. E para pior, obviamente.

Na VER

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